Pensamentos sobre o nu

O nu foi um elemento que demorou pra entrar na minha fotografia. Pra mim, sempre um desconforto. Já era desconforto ter de lidar com o outro na situação da foto, dirigir e ser presente e compartilhar um pouco do que eu tava vendo pra fazer a outra pessoa se sentir segura e confiante em relação ao trabalho, e seria ainda mais desconfortável se essa situação toda tivesse o peso da nudez no ambiente.

Meu primeiro ensaio nu foi um dos meus primeiros ensaios. Era pra uma matéria de fotografia digital que tive na faculdade – um dos maiores motivos que me levaram a fotografar hoje – e o tema do trabalho seria escolher um artista como inspiração de um ensaio. Fui meio ousada, escolhi uma fotógrafa que me inspirava bastante na época, que era Francesca Woodman. Não me lembro como conheci Francesca, mas acredito ter sido por indicação de uma amiga no meio da adolescência. Uma fotógrafa estadunidense que produziu basicamente tudo na faixa dos 20 anos, enquanto cursava Artes, e se matou aos 22, deixando um trabalho tão consistente que até hoje é tema de exposições pelo mundo.

Foi também minha primeira frustração por não compreender a relação entre identificar os elementos importantes de uma foto (olhar), planejar minha própria foto (prever) conforme esses elementos e colocar isso em prática (agir). Lembro de olhar pelo visor da câmera e não conseguir capturar nada parecido com Francesca, no que a própria modelo, que era uma conhecida da minha cidade natal, me disse que nada ficaria parecido mesmo porque ela não tinha o corpo adequado pra foto. O corpo dela era incrível, mas não parecia com o corpo da própria Francesca, que se retratava na maior parte das imagens: Francesca era magra, esguia, com peitos e bunda pequenos, enquanto minha modelo era baixa, com peitos e bunda grandes e marca de sol. Colocando as duas na mesma situação, a sexualização dos dois corpos ia por caminhos completamente diferentes.

Depois disso, coisas que aconteciam vez ou outra: as próprias meninas que eu fotografava guiavam o ensaio de forma que, em algum momento, sem me explicarem que era exatamente o que queriam, tiravam a roupa e pediam pra ser fotografadas de forma sensual. Era sempre um desconforto, em parte por me sentir em poder de algo maior do que gostaria de estar, que era a nudez delas, e em outra parte porque essas fotos eram sempre cortadas da publicação final.

Nunca foi meu interesse, o nu. De alguma forma, sinto que muita gente transforma essa opção de não vestir os modelos em isca pra atrair atenção em rede social. É também a ferramenta que os fotógrafos homens encontram para continuar dominando o corpo feminino – esses que se intitulam “fotógrafo de nu”, mas que nu é esse que só contempla corpos de mulher? Sob olhar sexualizado, mecânico e repetitivo, associado a discursos feministas criados por eles mesmos, que só servem pra tapar o sol com a peneira.

O nu foi chegando no meu trabalho pelas portas do fundo, associado a ideias que eu queria passar e que me obrigavam a enfrentar todo o constrangimento das situações para ver a ideia viver. Conversando com amigos e dividindo visões, fui percebendo como a pele me interessava enquanto tema, cor e textura – e a busca pela pele me fez percorrer os caminhos dos corpos até voltar pra ela mesma, pra fotografia de nu.

O sexo e a nudez e todo o universo conceitual e imagético que se encontra em torno disso vão ser temas interessantes enquanto considerados tabus, e nenhum problema nisso. Acho muito natural o sexo enquanto tema ou até mesmo a busca pela sexualização das modelos durante o processo da produção das imagens, ainda que feito por homens usando mulheres como suporte.

Mas também acho importante analisar, reconhecer e expor as relações de poder que se estabelecem nos entremeios desse processo de criação porque, sim, essas relações existem. Não é um discurso feminista na legenda ou o fato de que muitas mulheres pagam ou se humilham para ser fotografadas por caras mal-intencionados que anula o fato de que essa fotografia ser mais uma exploração de mulheres. Ao mesmo tempo em que um trabalho demonstrar sexo explícito não o torna, automaticamente, uma relação de exploração entre artista e retratado.